Freita para todos!

Há cerca de um ano depois de ter sido apresentada aos trilhos da dita Serra da Freita na caminhada, fiquei a pensar, intensamente, se teria capacidade física para a voltar a visitar, mas nos 25km. E parece que depois deste tempo todo o destino permitiu que a serra mostrasse mais dos seus perigosos encantos.

A prova teve início pouco depois das 10h na escola e assim se iniciava uma aventura onde não se sabia o que poderia acontecer e encontrar por lá. Os primeiros km são dentro do centro até os trilhos que nos orientam ao topo onde estão as eólicas. Nestes 9km iniciais tive receio do que me esperava por todos dizerem que é uma prova dura e exigente em todas as suas distâncias. Automaticamente só pensava em proteger o meu pé da lesão. Vim para a Freita com tempos de repouso para ele ficar estável e poder fazer a prova que há um ano andava a pensar nela.

Depois do abastecimento nas eólicas tinha de sobreviver até ao próximo abastecimento que seria aos 19km. Aqui iniciou–se uma verdadeira aventura e alucinante viagem com paisagens deslumbrantes a perder de vista. Entre rochas, arbustos de todas as cores e as famosas vacas arouquenses a pastar, tinha o cenário ideal para mim para tentar diminuir o meu tempo médio de prova, que até então era bem alto pelo desnível do percurso. Apenas pensei “Estou apaixonada e bora lá esticar um pouco as pernas, nestes trilhos cheios de côr até ao próximo abastecimento. Já só pensava nas laranjas e nas batatas fritas e algum sito para me molhar.

Durante estas horas juntei-me a um grupo de corajosos e alegres atletas com muita boa disposição e fomos todos a puxar uns pelos outros quando o calor e o cansaço eram mais fortes. Guardo da memória “ Oh Marco, bora lá”. Confesso que durante estes quilómetros a minha cabeça começou a ficar estranha com um desconforto brutal a comunicar com o meu sistema digestivo. Sentia uma moinha estranha da cabeça que me fazia perder a força e o controlo do corpo a caminhar. Fui comendo o que trazia na mochila para ver se ficava mais tranquila, mas percebi que apesar de andar sempre a beber agua o calor não estava a ajudar em nada.

Finalmente vejo o local do abastecimento e sinto que parece que vi um oásis. Molhei a cabeça nas torneiras que havia para os atletas, aproveitei também para refrescar as minhas pernas e o meu boné para ir mais fresco para os quilómetros finais. Sentir o corpo molhado, é uma sensação indescritível quando estamos no meio do nosso maior desafio com o nosso pior arqui-inimigo. Vamos lá que a minha cabeça já só pensava em acabar esta prova, mas ainda faltavam 9km. Lá dei andamento às sapatilhas e vamos lá em frente! Neste último pedaço de aventura tive o gosto de conhecer um dos vassouras da prova que era de Maia e que magnificamente me fez companhia até haver novamente civilização e tornou estes últimos e penosos quilómetros em algo mais animado onde ia puxando pela minha motivação interior.
Finalmente começo a chegar com o grupo, sempre a cantarolar e bem-dispostos ao centro de Arouca e juntos fizemos os últimos metros para a meta. Quando passo pelo pórtico de chegada caí de joelhos e algo se apodera de mim e começo a chorar! Chorar de dever cumprido, de ter conseguido chegar ao fim “no matter what” bem-disposta e sem lesões.

Sei que foram no final apenas 28km e que demorei cerca de 6h a terminar a prova. Mas isto para mim significa um turbilhão de coisas. Dei tudo de mim nestas horas longas, dei o meu limite de bem-estar para terminar em condições para mim normais e apesar de não ter consciência física de estar nas sapatilhas de um ultra atleta, como os meus colegas de equipa Ricardo nos Trilhos e o Sr. Moita dos 100km, começo a sentir um pouco a montanha russa de emoções que se passa numa prova desta intensidade. Eles sim são os meus heróis por estarem tantas horas em prova onde tudo pode acontecer. Um bem-haja a ambos pela coragem e força que lhes corre nas veias para estes desafios.

E assim digo … que podia ter corrido muito mais e em menos tempo? Talvez, mas não saberia qual seria o desfecho dessa outra aventura até porque quis “brincar” pelo seguro e acabar com o meu pé bem disposto. Porque jamais posso esquecer que no fim tenho a minha princesa à espera que a mãe possa estar em condições para brincar e cuidar dela.
Mas sinto o coração preenchido e com orgulho, muito orgulho por tudo o que tenho conseguido conquistar até aqui. Tive amigos que perguntaram “E então em que lugar ficas-te?”. Sei que a competitividade está um pouco enraizada em nós. Mas respondi apenas que o que interessava é que tinha alcançado os meus objectivos pessoais. Obrigada a todos que me apoiaram em mais uma aventura pelos trilhos.

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