MIUT – Juntos vamos mais longe e fazemos melhor. Parte I

00h de 23 de Abril de 2016 começa o meu primeiro grande desafio de 2016. Um desafio meu mas com o extra de ir correr para apoiar duas causas, duas crianças que precisam de todo o apoio para superarem os desafios que são as suas vidas: o Santiago Simões Bernardes e o Flávio Angélico.

Saio cheio de vontade e a sentir-me forte. O MIUT começa logo com uma dura subida em alcatrão, vou forte mas a tentar gerir, a adrenalina vai correndo forte e vou ansioso. Tento controlar o ritmo, vou ofegante e os kms parece que não passam.

O primeiro abastecimento que nunca mais chega, vou-me cruzando com amigos mas sigo sozinho. A noite está húmida devido às nuvens baixas e cedo tenho de vestir o impermeável. Chego finalmente ao primeiro abastecimento. Decido comer com calma. Sei o que me espera, uma descida super técnica, muito longa e ainda mais escorregadia do que tinha sido a anterior.

Assim que saio do abastecimento verifico que as pilhas no frontal estão a fraquejar. Já não dá para voltar atrás, vou arriscando mas a descida começa e o terreno torna-se mais traiçoeiro. Encontro um grupo de fotógrafos e aproveito as suas luzes para trocar de pilhas. Estou com frio e acelerado, um deles ajuda-me e agradeço imenso o apoio e atenção.

Mesmo com a luz no máximo esta descida é terrível, o avanço é muito lento e todo o cuidado é pouco para não cair e magoar-me. Chego à base com os músculos, joelhos e cabeça a doer de tanto tempo a descer, escorregar e lutar para me manter em pé. Novo abastecimento, agora só de líquidos, pergunto quem segue na frente e a minha previsão está correcta: Zach Miller. O Americano que só sabe correr na frente e sempre no limite.

Agora começa a primeira grande subida da prova, até ao abastecimento de Estanquinhos. Serão 1200m de Ascensão em menos de 10Km e começa logo por um trilho extremamente inclinado.

Entro no trilho e sigo na frente de um numeroso grupo mas vou com o impermeável vestido e começo a sentir calor. Paro para tirá-lo e perco o contacto com o grupo. Sigo sozinho a ver a cauda do grupo ao longe mas não consigo recuperar terreno. Vou sentindo dificuldades a subir e começo a sentir sono. Chego finalmente ao fim do trilho fechado e encontro um atleta sentado no chão, pergunto se está tudo bem e diz-me que está indisposto mas ok. Aproveito para vestir o impermeável de novo, pois no planalto está frio, e para tomar um comprimido de Guaraná para despertar.

Sigo por um trilho relativamente plano em passo de corrida e quando dou por mim estou caído em cima de um tronco com dores na perna direita e anca. Fechei os olhos por uns segundos e caí.

Levanto-me atordoado e dorido. Já no ano anterior tinha tido sono nesta parte do percurso portanto não fiquei muito preocupado.

Agora entro num estradão com uma vista deslumbrante sobre as nuvens e uma fantástica lua que faz parecer que estou sobre um mar de prata.

Aqui encontro o Isaque Lucena e o Miguel Silva que mais tarde se tornaram os meus companheiros até ao fim desta aventura.

O estradão vai subindo alternando zonas muito íngremes com partes mais corriveis, vou mais acordado na conversa e sabendo que o abastecimento de Estanquinhos já está perto.

Em Estanquinhos tomo algum tempo para comer a primeira sopa e retemperar forças depois da dura subida que tinha acabado de fazer. Saiu na companhia do Isaque o do Miguel e vou descendo o estradão com muita pedra onde o ano passado vi o nascer só sol. Este ano vou vê-lo no interior da floresta Laurissilva e logo no melhor sitio: uma crista com degraus que permite uma visão de 360º. De um lado o nascer do sol, e em todo o redor uma floresta luxuriante e várias cascatas enormes. Só por estes momentos vale a pena fazer provas tão longas no meio da natureza!

Terminou assim uma longa noite e conto que agora o meu corpo desperte para uma recuperação épica ao longo do dia.

Até ao Rosário descemos a bom ritmo mas com cuidado evitando quedas nos muitos degraus enlameados. Chegado ao abastecimento bebo um café e reponho a água nos cantis demorando muito pouco tempo. Resolvo seguir de novo sozinho.

Assim que começa a longa subida em direcção à Encumeada e sem perceber porquê, os meus olhos voltam a fechar-se. Sinto-me muito ensonado e cansado. Sento-me num tronco e fecho os olhos encostando a cabeça aos bastões, Estou ali uns minutos, passa o Miguel e o Isaque, mas eu ainda não me levanto, estou desanimado e sem compreender o que se passa. Durante a noite ter sono é relativamente normal, mas durante o dia!? Como irei aguentar o resto do dia e mais uma noite neste estado sonolento!? Entretanto passa um atleta do Mundo da Corrida que me desafia a seguir com ele. Ali não posso ficar, portanto aproveito o convite.

Chego à parte mais íngreme da subida e continuo sem capacidade de resposta. Vou-me arrastando e vendo os atletas mais próximos a afastar-se. Volta e meia os olhos fecham tento manter o foco mas não está fácil. O desânimo e a frustração vão-se acumulando. Ultrapassada a subida a aproximação ao hotel onde está o abastecimento é uma longa descida em alcatrão. Aproveito a maior facilidade de progressão para ligar ao meu Pai. As suas palavras acalmam-me e relembram-me que eu já estive ali e consegui ultrapassar as dificuldades. Então tomo uma decisão: Arranjar companhia para o que resta da prova para sentir-me mais seguro, principalmente para a segunda noite que nesta altura me assusta pois não sei como o sono e cansaço se irão fazer sentir.

No abastecimento da Encumeada sento-me um pouco, bebo um caldo quente e retempero forças. O sol já vai alto e o calor começa a fazer-se sentir. Sei que a próxima etapa até Curral das Freiras vai ser longa e possivelmente com pouca água, por isso reidrato bem e encho os cantis.

À saída sigo com o Isaque e o Miguel. O Miguel não conhecia, mas o Isaque conheci-o há dois anos, precisamente quando fazia a minha primeira corrida com objectivos solidários. Infelizmente na altura acompanhei-o até ao abastecimento nas antenas da Serra da Lousã onde acabou por desistir.

Saimos da Encumeada, descemos mais um pouco e entramos na escadaria do “pipe line” uma subida longa e dura em degraus. Sigo na frente do grupo, descubro que contando degraus de 4 em 4 consigo ir subindo a bom ritmo e manter a mente focada. No inicio do estradão que nos vai levar quase até ao Curral das Freiras o Miguel afasta-se e fico à conversa com o Isaque e desta vez fazemos um pacto: vamos juntos até ao fim e finalmente terminar uma prova juntos.

Nesta altura decido pelo minha segurança e pelo objectivo solidário que tenho. Qualquer objectivo pessoal e desportivo fica sem efeito. A partir de agora é levar o barco a bom porto dentro do tempo limite.

Até ao Curral das Freiras avançamos a um ritmo constante e apesar do calor que se faz sentir vamos encontrando alguma água em cascatas ao longo do caminho onde vamos bebendo e nos refrescando.

Chego ao Curral das Freiras sinto-me cansado, mas estou animado e cheio de vontade de ultrapassar este desafio. Agora é hora de comer a primeira bolonhesa com arroz, mudar de roupa, refrescar e preparar o ataque ao maciço central, os picos Ruivo e Areeiro.

(continua…)

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