MIUT – Juntos vamos mais longe e fazemos melhor. Parte II

Aproveito enquanto mudo de roupa para ligar ao Ricardo Ferreira e ao meu Pai para saber como estão as coisas com os meus companheiros de aventura e equipa. Eles puxam por mim e animam-me com a confiança que vou conseguir superar o que resta da prova.

Ao sair do Curral das Freiras noto que o calor aumentou consideravelmente. Aviso os meus companheiros de grupo que a subida vai ser longa e sem água, portanto convém gerir bem a que temos.

A subida é longa e escaldante, vamos avançando a um ritmo constante com pequenas pausas para refrescar e recuperar o fôlego. Chegamos ao topo com a àgua já a escassear e sabendo que o carrossel no topo ainda vai ser longo começo a temer que a progressão vai ser ainda mais dura e lenta. Vamos percorrendo o sobe e desce a caminho do pico Ruivo e todos só pensam em água.

Qualquer poça ou pequeno fio de água a escorrer na rocha serve para hidratar um pouco.

Ao virar uma curva do trilho encontramos um atleta desmaiado no chão. Está outro atleta com ele, entretanto ele recupera os sentidos e começa a vomitar. Vejo que água ele tem e acrescento alguma minha pare ser suficiente para colocar Dyoralite e dou-lhe para beber. Contactamos a organização e deixamo-lo com um colega de equipa. Realmente o calor e a dureza desta fase está a fazer-se sentir e a mexer connosco. A privação de água está a deixar todos agitados e preocupados. Continuamos e nunca mais chgamos ao Pico Ruivo. Já sabia que esta parte ia ser assim mas o calor está a dificultar ainda mais. A cerca de 2km do abastecimento encontramos um elemento da organização que vai em socorro do Atleta desmaiado e nos cede alguma água. Daqui ao abastecimento já seguimos mais confortáveis.

Mais uma vez chego ao Pico Ruivo a contar o tempo para passar dentro do corte no Areeiro. Sei que como até ali será um troço demorado e com os famosos túneis. Aperto com os meus companheiros de jornada para mantermos um ritmo forte a caminhar, pois neste troço corre-se muito pouco. Vou impondo o ritmo, escadas acime e abaixo, tuneis para a direita e para a esquerda, sempre a contar o tempo. Mas o esforço de vir a manter o ritmo vai-se fazendo sentir e quase a chegar ao Pico do Areeiro tenho uma quebra. As forças escasseiam. O que vale é que o abastecimento está já ali.

Entro no abastecimento pouco depois do Isaque e do Miguel. Vou buscar uma bolonhesa e uma sopa. Preciso mesmo de comer. A esposa e a filha do Miguel estão ali, ajudam-nos a reencher os cantis, ir buscar comida e trazem-nos cervejas. Autênticos Anjos no pico da Madeira!

Com novas forças e novo ânimo saiu do abastecimento, aproveito o facto de me ter distanciado um pouco dos meus companheiros para fazer algumas chamadas, dizer ao mundo que estou vivo e receber ânimo de quem me acompanha à distância. Sabe sempre bem ouvir vozes familiares e sentir o afecto e crença que têm em mim.

De novo junto dos meus companheiros inicia-se a longa descida pela pista de downhill. O terreno está completamente enlameado, a descida torna-se traiçoeira e extremamente escorregadia.

Vamos descendo devagar para evitar quedas. O Sol já se pôs e o cansaço começa a tornar os reflexos menos apurados. Terminada a descida chegamos a um abastecimento só de líquidos. Pouco nos demoramos e atacamos a última subida longa do percurso. O Miguel assume a liderança e impõe um ritmo forte, vamos em fila indiana , sigo em último. Foco-me nos pés do Isaque e tento não quebrar. Definitivamente as subidas não estão a ser o meu forte. Sempre em passo forte ultrapassamos esta a dificuldade mais depressa do que imaginava.

Retemperamos forças no abastecimento e lançamo-nos ao ataque à última parte do percurso. As grandes dificuldades estão ultrapassadas mas agora a luta é com a paciência e o cansaço. Já levamos quase 24h de corrida e ainda vamos demorar a chegar à Meta.

Começamos a descer em direcção à costa por trilhos e estradões, vou tentando manter um bom ritmo e puxar pelo grupo. O ritmo vai lento e os frontais estão com pouca pilha. A certa altura a desorientação começa a levar a melhor e começamos a questionar se já passámos o abastecimento. Mas no fim de mais uma levada lá está mais um. O penúltimo.

Daqui entramos na floresta das funduras e começam as minhas alucinações. Tal como o ano passado, no mesmo sitio e o mesmo tipo. Sei o quão cansado estou e tento ignorá-las, mantendo-me focado no percurso e nas fitas.

Pouco depois entro numa nova parte do percurso, a descida para e a Vereda do Larano. A descida é longa sempre em degraus enlameados e escorregadios, extremamente cansativa. O Isaque segue atrás de mim e com muito pouca luz no frontal, assim vou-me virando a cada 3 degraus para lhe iluminar o caminho. Este troço demora imenso tempo, seguimos com todo o cuidado para não deitar tudo a perder e nos magoarmos. Estamos irritados e cansados, com esta descida a cabeça fica num estado ainda pior com o elevado nível de concentração que nos exige.

Finalmente chegamos ao ultimo abastecimento, estamos de muito mau humor mas rapidamente percebemos que é mal geral. Aproveitamos para comer coisas quentes pois a noite arrefeceu imenso e a lama arrefeceu-nos os pés.

A noite já ia longa e o fim já não estava longe. Saímos para a vereda o mar batia calmamente e a noite estava calma. Vou mantendo o ritmo na frente do trio alternando constantemente corrida com caminhada, a vereda vai serpenteando e parece não ter fim. A certa altura somos surpreendidos com um ponto de controlo e até julgamos que estamos a ter alucinações colectivas. A vereda termina e uma benção amaldiçoada surge no horizonte: Machico. A meta está à vista mas o caminho até lá ainda vai ser longo. O cansaço já torna difícil manter um passo de corrida constante. Vamos conversando e tentando distrair a mente. Os quilómetros passam devagar. Muito devagar. Vou começando a fazer um balanço do que me trouxe aqui, do que me fez ultrapassar mais uma vez a dureza desta prova. O objectivo desportivo foi deixado para trás há quase 24 horas, na manhã de ontem. Agora com quase 30 horas de prova estou a chegar ao fim. Só posso agradecer a todos os que apoiaram este esforço. A todos os que compraram cada um destes longos 115kms. Agradecer ao Santiago e ao Flávio por me motivarem a fazer mais e melhor para os ajudar e por me inspirarem a superar as dificuldades que estas provas colocam no meu caminho.

Chego à meta de mão dada com o Isaque e o Miguel, também sem eles esta viagem não teria sido a mesma. Estou feliz mas ao mesmo tempo esgotado e cansado. Sou recebido pela Andreia e finalmente tenho informações dos meus colegas que se lançaram também neste tão duro desafio. Agora terminou. Estou orgulhoso, feliz, extremamente orgulhoso do que acabei de conquistar e consciente do porquê de ter chegado ali quase 30 horas depois de ter iniciado a jornada que são os 115km do Madeira Island Ultra Trail.

Mafalda Faria; Aires Barata; Clara Bernardes; Rita Franco; Miguel Marques; Elena Iabanji; Lesia Tomashevska; José Bernardino; Rute Franco; Liliana e Roberto; Cláudia Raquel Figueiredo; Daniela Lopes; Ivo santos; Ines Gonçalves; Gonçalo Carregueiro; Jerome; Eugénia Vitorino; Andrea Neves e Tiago Basilio; Miguel Gameiro; Ana Ferreira; Virgilio e Eugénia; Margarida roldão; Sofia Nobre ;Carolina Pereira; Anabela Pombeiro; Filipa Francisco; Ana Duarte; Andreia Sousa e Pecas Land Rover.

Em toda esta jornada corri convosco na mente e no coração. Em meu nome, do Santiago e do Flávio Muito Obrigado.

2 thoughts on “MIUT – Juntos vamos mais longe e fazemos melhor. Parte II

  • 21 Junho, 2016 at 14:46
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    Parabéns! É impossível recordar estes momentos sem que uma lágrima me percorra o rosto… bom saber que no Pico do Areeiro conseguimos (eu e a Marta) ter alguma utilidade. Obrigada e até um próximo desafio!

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  • 21 Junho, 2016 at 16:31
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    Obrigado Ana.
    Quando andamos tantas horas focado num objectivo qualquer ajuda ou apoio é importante e nos marca.
    Beijinhos para ti e para a Marta. Abraço para o Miguel

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